Categoria: Conhecer-me

  • O que o HMI me ensinou sobre não rotular ninguém

    O que o HMI me ensinou sobre não rotular ninguém

    Antes de falar sobre como vejo o mundo, ou sobre os padrões que repito, faz sentido voltar ao início. À ferramenta que me ajudou a começar a olhar para tudo isto: o HMI.

    Uma das perguntas que mais ouço quando falo sobre o HMI é sempre parecida: “então isso é como um teste de personalidade?” Compreendo a pergunta, mas a resposta mais honesta é não. E é precisamente essa diferença que torna esta ferramenta tão útil.

    Um teste de personalidade costuma dizer quem somos. O HMI, a Análise Comportamental que uso nas sessões, ajuda antes a perceber como funcionamos. A diferença parece pequena, mas muda tudo.

    Perfis, não etiquetas

    Quando alguém percebe que tem tendência para, por exemplo, evitar o conflito, ou para precisar de ter tudo sob controlo, ou para decidir muito depressa, isso não é uma etiqueta que a define para sempre. É antes um padrão de funcionamento, uma forma de reagir ao mundo que foi sendo construída ao longo da vida, e que pode ser compreendida, trabalhada e, quando faz sentido, transformada.

    O HMI dá nome a esses padrões. E dar nome a algo que sentíamos mas não sabíamos explicar costuma trazer um alívio genuíno. Não porque a pessoa se sinta arrumada numa caixa, mas porque finalmente consegue olhar para si própria com mais clareza.

    Para que serve, na prática

    Nas sessões, uso o HMI para ajudar a pessoa a perceber coisas como:

    Porque reage de determinada forma em situações de pressão.
    Que necessidades estão por trás de comportamentos que repete sem perceber porquê.
    Onde estão as suas forças naturais, e onde vale a pena desenvolver mais consciência.
    Como comunica, e como isso pode ser recebido de forma diferente pelos outros.

    Não é um resultado fechado. É um ponto de partida para uma conversa mais honesta comigo própria.

    O cuidado que tenho sempre

    Nunca uso o HMI para dizer a alguém quem é. Uso para ajudar a pessoa a perceber-se melhor, a partir daquilo que já traz consigo. A ferramenta dá estrutura, mas quem interpreta o que faz sentido, e o que quer fazer com essa informação, é sempre a pessoa.

    Porque no fundo é sempre esse o meu trabalho: não dizer às pessoas quem são, mas ajudá-las a olhar para dentro com mais clareza.

  • Como vejo o mundo? Uma jornada de autoconhecimento

    Como vejo o mundo? Uma jornada de autoconhecimento

    Há uma pergunta que raramente fazemos a nós próprios, e que pode mudar por completo a forma como vivemos as situações do dia a dia: será que vejo o que existe, ou vejo aquilo que aprendi a ver?

    Não olhamos para a realidade apenas com os olhos. Olhamos através da nossa história, das experiências que vivemos, daquilo que aprendemos, das nossas crenças, emoções e expectativas. É por isso que duas pessoas podem estar perante a mesma situação, a mesma reunião, o mesmo comentário, a mesma mudança, e vivê-la de formas completamente diferentes. Uma pode ver uma oportunidade onde a outra vê um risco.

    Nenhuma das duas está a inventar aquilo que vê. Cada uma está a interpretar a realidade a partir da sua própria lente. O autoconhecimento começa aqui: perceber que lentes usamos para olhar para o mundo.

    Da interpretação ao conflito

    Esta lente pessoal tem consequências práticas. Alguém não responde a uma mensagem, e a nossa cabeça preenche o silêncio, “está chateado comigo”, “deve estar ocupado”, “se calhar aconteceu alguma coisa”. O acontecimento é um. A interpretação, múltipla.

    Não reagimos apenas ao que acontece. Reagimos ao significado que damos ao que acontece. Por isso, antes de assumirmos que sabemos o que o outro quis dizer, vale a pena perguntar: “estou a ver o que aconteceu, ou aquilo que interpretei que aconteceu?”

    Intenção não é impacto

    Quantas vezes dissemos algo com a melhor das intenções, e a outra pessoa recebeu de forma completamente diferente? A intenção explica o que quisemos transmitir. O impacto mostra como aquilo chegou ao outro. E os dois podem ser muito diferentes, porque quem nos ouve traz consigo a sua própria história e sensibilidade.

    Isto não significa medir cada palavra ou deixar de ser genuínos. Significa aprender a escutar o impacto que temos nos outros. Uma conversa muda quando deixamos de tentar provar “mas eu não quis dizer isso” e começamos a perguntar “o que é que tu ouviste no que eu disse?”

    Como dizemos o que precisamos

    Grande parte dos conflitos não nasce de grandes problemas. Nasce de pequenas coisas que se repetem, e da forma como escolhemos falar sobre elas. Há sempre duas escolhas possíveis: apontar o dedo (“tu fazes sempre isto”) ou expressar a necessidade (“podes fazer desta forma, por favor?”). A diferença é subtil, mas muda por completo o rumo da conversa.

    Ser claro não é ser agressivo. Podemos estabelecer limites, fazer pedidos e expressar necessidades sem transformar a comunicação numa acusação. Clareza é também respeito.

    Os padrões que repetimos

    Há situações que parecem mudar de cenário, de pessoas, de circunstâncias, mas acabam sempre por nos levar ao mesmo lugar. Escolhemos pessoas diferentes, mas sentimos a mesma coisa. Prometemos a nós próprios que desta vez vai ser diferente, e passado algum tempo percebemos que voltámos a fazer exatamente aquilo que não queríamos repetir.

    Nem todos os nossos padrões são escolhas conscientes. Aprendemos formas de reagir, proteger-nos, comunicar, agradar, controlar ou fugir. E aquilo que um dia nos ajudou a lidar com determinada situação pode continuar connosco muito depois de já não ser necessário.

    O problema não é ter padrões. O problema é viver dentro deles sem os reconhecer.

    E se parássemos antes de reagir?

    Recebemos uma mensagem, “precisamos de falar”, e em poucos segundos a nossa cabeça já construiu uma história inteira. Começamos a reagir não ao que realmente aconteceu, mas àquilo que imaginámos que aconteceu.

    Talvez não consigamos escolher o que sentimos naquele primeiro segundo. Mas podemos aprender a criar um espaço entre o que acontece e aquilo que fazemos com isso. Uma pausa. Uma respiração. Uma pergunta: “o que é que eu sei realmente?”

    Quando a reação é maior do que o momento

    Às vezes a nossa reação parece maior do que aquilo que acabou de acontecer. Alguém faz um comentário aparentemente simples e sentimos uma coisa enorme cá dentro. E depois pensamos: “porque é que isto me afetou tanto?”

    Talvez porque aquilo que aconteceu agora tenha tocado em algo que já existia antes, uma frase que já ouvimos muitas vezes, uma experiência que deixou marca. Nem sempre estamos apenas a reagir ao momento presente. Às vezes, estamos também a reagir a tudo aquilo que aquele momento nos fez lembrar. Isto não significa que a reação esteja errada. Significa que vale a pena ter curiosidade sobre ela.

    Não preciso de mudar tudo, preciso de começar a perceber-me

    Talvez seja essa uma das partes mais bonitas do autoconhecimento. Não se trata de descobrir tudo de uma vez, nem de encontrar defeitos em nós para os corrigir todos. É começar a observar: como vejo o mundo, como interpreto o que acontece, como comunico, que padrões repito, porque reajo como reajo.

    Não precisamos de ter todas as respostas. Precisamos apenas de começar a olhar. Porque quando compreendemos melhor quem somos, começamos também a perceber o que queremos manter, o que queremos transformar e aquilo que já não nos serve.

    Conhecer-me para me reencontrar. Este mês começámos por olhar para dentro. No próximo, perguntamos: o que já não me serve?