Autor: Erika Henriques

  • O que já não me serve? Uma jornada para libertar o que deixou de ser meu

    O que já não me serve? Uma jornada para libertar o que deixou de ser meu

    Há coisas que carregamos durante tanto tempo que deixamos de questionar porque ainda as levamos connosco.

    Uma ideia sobre quem somos. Uma frase que alguém nos disse. Uma expectativa que aprendemos a cumprir. Um medo que começou por fazer sentido, mas que continuamos a obedecer mesmo quando já não existe a mesma razão para o sentir.

    Há histórias que fizeram parte da nossa vida e que, sem darmos conta, começaram a fazer parte daquilo que acreditamos ser.

    “Eu sou assim.”

    “Nunca fui capaz disso.”

    “Tenho de agradar.”

    “Não posso falhar.”

    “É melhor não arriscar.”

    Mas será que tudo aquilo que aprendemos sobre nós continua a ser verdade?

    As histórias que contamos sobre nós

    Construímos a nossa perceção de nós próprios a partir de muitas coisas.

    Daquilo que ouvimos em criança. Das experiências que vivemos. Da forma como fomos tratados. Dos momentos em que nos sentimos capazes e daqueles em que nos sentimos pequenos.

    Algumas dessas experiências ajudam-nos a crescer. Outras deixam marcas.

    E, com o tempo, podemos começar a contar uma história sobre nós próprios sem perceber que é apenas uma interpretação daquilo que vivemos.

    Uma criança que ouviu muitas vezes que era distraída pode crescer a acreditar que nunca será organizada.

    Alguém que foi criticado por expressar demasiado as emoções pode aprender a escondê-las.

    Quem falhou numa determinada situação pode começar a acreditar que não tem capacidade para tentar novamente.

    A história aconteceu.

    Mas a história não precisa de decidir o resto do caminho.

    Quem te disse que tu eras isso?

    Há rótulos que recebemos tão cedo que acabamos por esquecer que foram colocados por alguém.

    “És teimosa.”

    “És demasiado sensível.”

    “És complicada.”

    “És preguiçosa.”

    “Não tens jeito para isso.”

    “És assim mesmo.”

    Talvez algumas destas palavras tenham descrito um comportamento num determinado momento.

    Mas um comportamento não é uma identidade.

    Uma característica não é uma sentença.

    E aquilo que alguém viu em nós numa determinada fase da vida não tem necessariamente de definir quem somos hoje.

    Tu não és aquilo que disseram de ti.

    És muito mais do que qualquer descrição que alguém tenha conseguido fazer de ti.

    Afinal, a mente mente!

    A nossa mente tem uma capacidade extraordinária para procurar padrões, antecipar perigos e tentar proteger-nos.

    Mas também pode transformar uma experiência numa regra.

    Um acontecimento numa previsão.

    Uma dificuldade numa identidade.

    Uma vez que alguma coisa correu mal, a mente pode começar a dizer:

    “Vai acontecer outra vez.”

    E, quando ouvimos essa voz vezes suficientes, podemos deixar de perceber que estamos perante uma crença e começar a tratá-la como um facto.

    É aqui que começa o verdadeiro trabalho de libertação.

    Não precisamos de acreditar em tudo o que pensamos.

    Podemos parar.

    Questionar.

    Observar.

    E perguntar:

    “Isto é realmente verdade sobre mim ou é apenas aquilo que aprendi a acreditar?”

    E se alguns dos teus fantasmas fossem apenas crenças?

    Talvez os fantasmas que carregamos não sejam acontecimentos que continuam a acontecer.

    Talvez sejam memórias.

    Medos.

    Expectativas.

    Rótulos.

    Histórias antigas que continuam a ocupar espaço dentro da nossa cabeça.

    Algumas já nem sabemos exatamente quando começaram.

    Mas continuam lá.

    E é curioso como conseguimos arrumar uma casa inteira e, ainda assim, manter dentro de nós coisas que já não usamos há anos.

    Talvez também seja preciso fazer essa limpeza por dentro.

    Não para apagar o passado.

    Não para fingir que nada aconteceu.

    Mas para perceber o que ainda faz sentido levar connosco.

    Nem tudo precisa de ir comigo

    Libertar não significa rejeitar quem fomos.

    Também não significa apagar experiências difíceis ou fingir que não deixaram marcas.

    Significa reconhecer que algumas coisas cumpriram o seu papel e já não precisam de continuar a acompanhar-nos.

    Uma crença que um dia nos protegeu pode hoje limitar-nos.

    Uma forma de reagir que nasceu para nos defender pode já não ser necessária.

    Uma expectativa que carregámos para corresponder aos outros pode não ter lugar na vida que queremos construir.

    Nem tudo o que fez parte da minha história precisa de fazer parte do meu futuro.

    E talvez esta seja uma das escolhas mais importantes que podemos fazer.

    O que escolho levar comigo?

    Quando começamos a libertar espaço, surge outra pergunta.

    Se eu deixar isto para trás, o que quero levar comigo?

    Talvez a resposta seja confiança.

    Curiosidade.

    Coragem.

    Autenticidade.

    Liberdade.

    A capacidade de dizer não.

    A vontade de aprender.

    A consciência de que posso mudar de opinião.

    A liberdade de escolher de forma diferente.

    Porque libertar não é ficar sem nada.

    É escolher melhor o que fica.

    O poder de te conheceres

    Conhecer-nos não significa encontrar uma versão perfeita de nós próprios.

    Significa perceber quem somos, de onde vêm algumas das nossas escolhas, quais os padrões que repetimos e quais as histórias que ainda estamos a contar sobre nós.

    E, a partir dessa consciência, ganhar espaço para escolher.

    Talvez não possamos mudar tudo aquilo que vivemos.

    Mas podemos começar a mudar a forma como nos relacionamos com aquilo que vivemos.

    Podemos questionar aquilo que acreditamos sobre nós.

    Podemos reconhecer aquilo que já não nos serve.

    Podemos escolher o que queremos continuar a levar connosco.

    E talvez seja aí que começa uma forma diferente de liberdade.

    Não preciso de me tornar outra pessoa.

    Preciso apenas de perceber o que já não é meu, libertar o que deixou de me servir e dar espaço à pessoa que estou a escolher ser.

    Porque, no fundo, o poder vem do autoconhecimento.

    E conhecer-me é também dar-me a liberdade de escolher o caminho que quero continuar a percorrer.

  • Dormir também é cuidar de nós

    Dormir também é cuidar de nós

    Vivemos a correr atrás do tempo, e o sono é muitas vezes a primeira coisa que sacrificamos. Achamos que descansar é apenas desligar o corpo no fim do dia, mas é muito mais do que isso: é dar à mente e ao corpo o espaço de que precisam para se reorganizarem.

    Aqui ficam alguns gestos simples que fazem uma diferença real na qualidade do teu sono, e em como vives o dia seguinte.

    Respeita o teu ritmo

    A hora ideal de dormir e acordar varia de pessoa para pessoa. Ouve o teu corpo e tenta manter horários regulares, mesmo aos fins de semana.

    Desacelera ao fim do dia

    Reduz estímulos antes de dormir, como ecrãs e notificações. Pequenos rituais de calma ajudam o corpo a perceber que é hora de abrandar.

    Acorda de forma natural

    Sempre que possível, deixa a luz natural guiar o corpo. Isso ajuda a regular o relógio biológico e a sentires mais energia ao longo do dia.

    Cria um ambiente que favoreça o sono

    Um quarto confortável, fresco e com pouco ruído faz toda a diferença na qualidade do descanso.

    Conecta-te com a natureza

    Passar tempo ao ar livre, mesmo que poucos minutos, ajuda a regular o ciclo natural do sono e a aumentar a energia durante o dia.

    Valoriza o teu amanhã

    Dormir bem é um investimento em ti. Mais energia, mais foco, mais clareza para viveres o dia com mais presença.

    Hoje descansas, amanhã consegues mais.

  • O que o HMI me ensinou sobre não rotular ninguém

    O que o HMI me ensinou sobre não rotular ninguém

    Antes de falar sobre como vejo o mundo, ou sobre os padrões que repito, faz sentido voltar ao início. À ferramenta que me ajudou a começar a olhar para tudo isto: o HMI.

    Uma das perguntas que mais ouço quando falo sobre o HMI é sempre parecida: “então isso é como um teste de personalidade?” Compreendo a pergunta, mas a resposta mais honesta é não. E é precisamente essa diferença que torna esta ferramenta tão útil.

    Um teste de personalidade costuma dizer quem somos. O HMI, a Análise Comportamental que uso nas sessões, ajuda antes a perceber como funcionamos. A diferença parece pequena, mas muda tudo.

    Perfis, não etiquetas

    Quando alguém percebe que tem tendência para, por exemplo, evitar o conflito, ou para precisar de ter tudo sob controlo, ou para decidir muito depressa, isso não é uma etiqueta que a define para sempre. É antes um padrão de funcionamento, uma forma de reagir ao mundo que foi sendo construída ao longo da vida, e que pode ser compreendida, trabalhada e, quando faz sentido, transformada.

    O HMI dá nome a esses padrões. E dar nome a algo que sentíamos mas não sabíamos explicar costuma trazer um alívio genuíno. Não porque a pessoa se sinta arrumada numa caixa, mas porque finalmente consegue olhar para si própria com mais clareza.

    Para que serve, na prática

    Nas sessões, uso o HMI para ajudar a pessoa a perceber coisas como:

    Porque reage de determinada forma em situações de pressão.
    Que necessidades estão por trás de comportamentos que repete sem perceber porquê.
    Onde estão as suas forças naturais, e onde vale a pena desenvolver mais consciência.
    Como comunica, e como isso pode ser recebido de forma diferente pelos outros.

    Não é um resultado fechado. É um ponto de partida para uma conversa mais honesta comigo própria.

    O cuidado que tenho sempre

    Nunca uso o HMI para dizer a alguém quem é. Uso para ajudar a pessoa a perceber-se melhor, a partir daquilo que já traz consigo. A ferramenta dá estrutura, mas quem interpreta o que faz sentido, e o que quer fazer com essa informação, é sempre a pessoa.

    Porque no fundo é sempre esse o meu trabalho: não dizer às pessoas quem são, mas ajudá-las a olhar para dentro com mais clareza.

  • Como vejo o mundo? Uma jornada de autoconhecimento

    Como vejo o mundo? Uma jornada de autoconhecimento

    Há uma pergunta que raramente fazemos a nós próprios, e que pode mudar por completo a forma como vivemos as situações do dia a dia: será que vejo o que existe, ou vejo aquilo que aprendi a ver?

    Não olhamos para a realidade apenas com os olhos. Olhamos através da nossa história, das experiências que vivemos, daquilo que aprendemos, das nossas crenças, emoções e expectativas. É por isso que duas pessoas podem estar perante a mesma situação, a mesma reunião, o mesmo comentário, a mesma mudança, e vivê-la de formas completamente diferentes. Uma pode ver uma oportunidade onde a outra vê um risco.

    Nenhuma das duas está a inventar aquilo que vê. Cada uma está a interpretar a realidade a partir da sua própria lente. O autoconhecimento começa aqui: perceber que lentes usamos para olhar para o mundo.

    Da interpretação ao conflito

    Esta lente pessoal tem consequências práticas. Alguém não responde a uma mensagem, e a nossa cabeça preenche o silêncio, “está chateado comigo”, “deve estar ocupado”, “se calhar aconteceu alguma coisa”. O acontecimento é um. A interpretação, múltipla.

    Não reagimos apenas ao que acontece. Reagimos ao significado que damos ao que acontece. Por isso, antes de assumirmos que sabemos o que o outro quis dizer, vale a pena perguntar: “estou a ver o que aconteceu, ou aquilo que interpretei que aconteceu?”

    Intenção não é impacto

    Quantas vezes dissemos algo com a melhor das intenções, e a outra pessoa recebeu de forma completamente diferente? A intenção explica o que quisemos transmitir. O impacto mostra como aquilo chegou ao outro. E os dois podem ser muito diferentes, porque quem nos ouve traz consigo a sua própria história e sensibilidade.

    Isto não significa medir cada palavra ou deixar de ser genuínos. Significa aprender a escutar o impacto que temos nos outros. Uma conversa muda quando deixamos de tentar provar “mas eu não quis dizer isso” e começamos a perguntar “o que é que tu ouviste no que eu disse?”

    Como dizemos o que precisamos

    Grande parte dos conflitos não nasce de grandes problemas. Nasce de pequenas coisas que se repetem, e da forma como escolhemos falar sobre elas. Há sempre duas escolhas possíveis: apontar o dedo (“tu fazes sempre isto”) ou expressar a necessidade (“podes fazer desta forma, por favor?”). A diferença é subtil, mas muda por completo o rumo da conversa.

    Ser claro não é ser agressivo. Podemos estabelecer limites, fazer pedidos e expressar necessidades sem transformar a comunicação numa acusação. Clareza é também respeito.

    Os padrões que repetimos

    Há situações que parecem mudar de cenário, de pessoas, de circunstâncias, mas acabam sempre por nos levar ao mesmo lugar. Escolhemos pessoas diferentes, mas sentimos a mesma coisa. Prometemos a nós próprios que desta vez vai ser diferente, e passado algum tempo percebemos que voltámos a fazer exatamente aquilo que não queríamos repetir.

    Nem todos os nossos padrões são escolhas conscientes. Aprendemos formas de reagir, proteger-nos, comunicar, agradar, controlar ou fugir. E aquilo que um dia nos ajudou a lidar com determinada situação pode continuar connosco muito depois de já não ser necessário.

    O problema não é ter padrões. O problema é viver dentro deles sem os reconhecer.

    E se parássemos antes de reagir?

    Recebemos uma mensagem, “precisamos de falar”, e em poucos segundos a nossa cabeça já construiu uma história inteira. Começamos a reagir não ao que realmente aconteceu, mas àquilo que imaginámos que aconteceu.

    Talvez não consigamos escolher o que sentimos naquele primeiro segundo. Mas podemos aprender a criar um espaço entre o que acontece e aquilo que fazemos com isso. Uma pausa. Uma respiração. Uma pergunta: “o que é que eu sei realmente?”

    Quando a reação é maior do que o momento

    Às vezes a nossa reação parece maior do que aquilo que acabou de acontecer. Alguém faz um comentário aparentemente simples e sentimos uma coisa enorme cá dentro. E depois pensamos: “porque é que isto me afetou tanto?”

    Talvez porque aquilo que aconteceu agora tenha tocado em algo que já existia antes, uma frase que já ouvimos muitas vezes, uma experiência que deixou marca. Nem sempre estamos apenas a reagir ao momento presente. Às vezes, estamos também a reagir a tudo aquilo que aquele momento nos fez lembrar. Isto não significa que a reação esteja errada. Significa que vale a pena ter curiosidade sobre ela.

    Não preciso de mudar tudo, preciso de começar a perceber-me

    Talvez seja essa uma das partes mais bonitas do autoconhecimento. Não se trata de descobrir tudo de uma vez, nem de encontrar defeitos em nós para os corrigir todos. É começar a observar: como vejo o mundo, como interpreto o que acontece, como comunico, que padrões repito, porque reajo como reajo.

    Não precisamos de ter todas as respostas. Precisamos apenas de começar a olhar. Porque quando compreendemos melhor quem somos, começamos também a perceber o que queremos manter, o que queremos transformar e aquilo que já não nos serve.

    Conhecer-me para me reencontrar. Este mês começámos por olhar para dentro. No próximo, perguntamos: o que já não me serve?