O que já não me serve? Uma jornada para libertar o que deixou de ser meu

Mulher sentada de costas a observar o pôr do sol, com papéis a voar representando medos, culpa, rótulos e expectativas que já não servem

Há coisas que carregamos durante tanto tempo que deixamos de questionar porque ainda as levamos connosco.

Uma ideia sobre quem somos. Uma frase que alguém nos disse. Uma expectativa que aprendemos a cumprir. Um medo que começou por fazer sentido, mas que continuamos a obedecer mesmo quando já não existe a mesma razão para o sentir.

Há histórias que fizeram parte da nossa vida e que, sem darmos conta, começaram a fazer parte daquilo que acreditamos ser.

“Eu sou assim.”

“Nunca fui capaz disso.”

“Tenho de agradar.”

“Não posso falhar.”

“É melhor não arriscar.”

Mas será que tudo aquilo que aprendemos sobre nós continua a ser verdade?

As histórias que contamos sobre nós

Construímos a nossa perceção de nós próprios a partir de muitas coisas.

Daquilo que ouvimos em criança. Das experiências que vivemos. Da forma como fomos tratados. Dos momentos em que nos sentimos capazes e daqueles em que nos sentimos pequenos.

Algumas dessas experiências ajudam-nos a crescer. Outras deixam marcas.

E, com o tempo, podemos começar a contar uma história sobre nós próprios sem perceber que é apenas uma interpretação daquilo que vivemos.

Uma criança que ouviu muitas vezes que era distraída pode crescer a acreditar que nunca será organizada.

Alguém que foi criticado por expressar demasiado as emoções pode aprender a escondê-las.

Quem falhou numa determinada situação pode começar a acreditar que não tem capacidade para tentar novamente.

A história aconteceu.

Mas a história não precisa de decidir o resto do caminho.

Quem te disse que tu eras isso?

Há rótulos que recebemos tão cedo que acabamos por esquecer que foram colocados por alguém.

“És teimosa.”

“És demasiado sensível.”

“És complicada.”

“És preguiçosa.”

“Não tens jeito para isso.”

“És assim mesmo.”

Talvez algumas destas palavras tenham descrito um comportamento num determinado momento.

Mas um comportamento não é uma identidade.

Uma característica não é uma sentença.

E aquilo que alguém viu em nós numa determinada fase da vida não tem necessariamente de definir quem somos hoje.

Tu não és aquilo que disseram de ti.

És muito mais do que qualquer descrição que alguém tenha conseguido fazer de ti.

Afinal, a mente mente!

A nossa mente tem uma capacidade extraordinária para procurar padrões, antecipar perigos e tentar proteger-nos.

Mas também pode transformar uma experiência numa regra.

Um acontecimento numa previsão.

Uma dificuldade numa identidade.

Uma vez que alguma coisa correu mal, a mente pode começar a dizer:

“Vai acontecer outra vez.”

E, quando ouvimos essa voz vezes suficientes, podemos deixar de perceber que estamos perante uma crença e começar a tratá-la como um facto.

É aqui que começa o verdadeiro trabalho de libertação.

Não precisamos de acreditar em tudo o que pensamos.

Podemos parar.

Questionar.

Observar.

E perguntar:

“Isto é realmente verdade sobre mim ou é apenas aquilo que aprendi a acreditar?”

E se alguns dos teus fantasmas fossem apenas crenças?

Talvez os fantasmas que carregamos não sejam acontecimentos que continuam a acontecer.

Talvez sejam memórias.

Medos.

Expectativas.

Rótulos.

Histórias antigas que continuam a ocupar espaço dentro da nossa cabeça.

Algumas já nem sabemos exatamente quando começaram.

Mas continuam lá.

E é curioso como conseguimos arrumar uma casa inteira e, ainda assim, manter dentro de nós coisas que já não usamos há anos.

Talvez também seja preciso fazer essa limpeza por dentro.

Não para apagar o passado.

Não para fingir que nada aconteceu.

Mas para perceber o que ainda faz sentido levar connosco.

Nem tudo precisa de ir comigo

Libertar não significa rejeitar quem fomos.

Também não significa apagar experiências difíceis ou fingir que não deixaram marcas.

Significa reconhecer que algumas coisas cumpriram o seu papel e já não precisam de continuar a acompanhar-nos.

Uma crença que um dia nos protegeu pode hoje limitar-nos.

Uma forma de reagir que nasceu para nos defender pode já não ser necessária.

Uma expectativa que carregámos para corresponder aos outros pode não ter lugar na vida que queremos construir.

Nem tudo o que fez parte da minha história precisa de fazer parte do meu futuro.

E talvez esta seja uma das escolhas mais importantes que podemos fazer.

O que escolho levar comigo?

Quando começamos a libertar espaço, surge outra pergunta.

Se eu deixar isto para trás, o que quero levar comigo?

Talvez a resposta seja confiança.

Curiosidade.

Coragem.

Autenticidade.

Liberdade.

A capacidade de dizer não.

A vontade de aprender.

A consciência de que posso mudar de opinião.

A liberdade de escolher de forma diferente.

Porque libertar não é ficar sem nada.

É escolher melhor o que fica.

O poder de te conheceres

Conhecer-nos não significa encontrar uma versão perfeita de nós próprios.

Significa perceber quem somos, de onde vêm algumas das nossas escolhas, quais os padrões que repetimos e quais as histórias que ainda estamos a contar sobre nós.

E, a partir dessa consciência, ganhar espaço para escolher.

Talvez não possamos mudar tudo aquilo que vivemos.

Mas podemos começar a mudar a forma como nos relacionamos com aquilo que vivemos.

Podemos questionar aquilo que acreditamos sobre nós.

Podemos reconhecer aquilo que já não nos serve.

Podemos escolher o que queremos continuar a levar connosco.

E talvez seja aí que começa uma forma diferente de liberdade.

Não preciso de me tornar outra pessoa.

Preciso apenas de perceber o que já não é meu, libertar o que deixou de me servir e dar espaço à pessoa que estou a escolher ser.

Porque, no fundo, o poder vem do autoconhecimento.

E conhecer-me é também dar-me a liberdade de escolher o caminho que quero continuar a percorrer.






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